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Belinha na Alemanha

Divagações sobre os disparates da vida e sobre essa cultura alemã que já não é totalmente um bicho de sete cabeças

Belinha na Alemanha

Divagações sobre os disparates da vida e sobre essa cultura alemã que já não é totalmente um bicho de sete cabeças

22.Nov.17

Um Lago Multilíngue

A equipa sapo pediu e eu não me importo de ter mais um motivo para vasculhar nas fotos uma paisagem que me tenha marcado em 2017. Foram tantas, nacionais e por esse mundo fora, há tanto para ver e pasmar que torna difícil a tarefa de escolher somente uma.

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Bodensee, margens de Meersburg na Alemanha, Maio de 2017 

 

Escolhi esta fotografia, pela simples razão de não ser apenas uma paisagem. É um sonho tornado realidade, não o meu mas o da minha mãe.

Há tanto para agradecer à minha mãe, desde os mimos, às noites sem dormir, o corrupio de subir e descer escadas, de consultório em consultório, de contar-me ao ouvido as histórias da televisão, de perdoar as minhas birras que sendo como eu era não entendia o mundo e este não me entendia, de coser e descoser a minha boneca preferida, hoje existe uma perna, oh minha querida Nena. De não desistir, ouvir-me falar, fazer-me sentir especial, puder sonhar, alto ou baixo, ela estava e está sempre lá. 

Por isso e por tudo o mais que o coração guarda e as palavras não saem, foi muito especial para mim levar a minha mãe nesta viagem, vamos ver os Alpes. Um sonho de menina que a dureza da vida encarregou-se de afastar, levar por marés para outras terras, era somente um sonho, uma barbaridade pensar que algum dia poderia ser possível. 

 

A felicidade é a partilha, seja de um vinho, de uma boa mesa, uma casa a dois, um abraço apertado, o aceno de agradecimento, um sonho concretizado. Nada poderá vir substituir o que eu vi e senti naquele momento. O que eu escutei da minha mãe que enquanto sentada na murada olhava para lá do horizonte, foi puro silêncio, inquietante, pois na ausência das palavras havia um tumulto de emoções. Minhas, delas, daquele momento, da brisa que fazia, do azul encontrar-se entre o lago e o céu, do tempo passar devagar ou quiçá ter parado, do aroma da terra fresca, da imensidão daquelas montanhas que nos olhavam de frente. Foi ensurdecedor viver aquele momento, foi bom, um misto de contrariedades, de paz e desassossego. Será possível algo assim? 

Transmitir por palavras o que se sente é uma arte dos poetas, dos escritores que escrevem sem fios, dos músicos que sussuram ao ouvido ou daqueles que dão cor, traços e formas às emoções. Eu resigno-me e fico com as minhas, são poucas e nem sequer tão bonitas, mas sinceras como a gratidão que tenho à minha mãe. 

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