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Belinha na Alemanha

Divagações sobre os disparates da vida e sobre essa cultura alemã que já não é totalmente um bicho de sete cabeças

Belinha na Alemanha

Divagações sobre os disparates da vida e sobre essa cultura alemã que já não é totalmente um bicho de sete cabeças

13.Dez.17

Como falar sobre a morte?

Eu não sei, quatro anos de experiência profissional e ainda não sei. Sei ser fria, aprendi pelas circunstâncias a sê-lo, sou racional e muita lógica entra na minha cabeça quando a situação toca nesse precipício. Penso que a dor vai acabar, que viveu uma boa vida, foram muitos anos rodeado de amor e que a família fez o melhor ao seu alcance para o ajudar, que esta foi forte quando a pessoa não o conseguiu ser.

 

Se há algo em que acredito é que dá consolo aos que ficam essa mesma particularidade, na sua tristeza profunda e no luto há aquela réstia que os acalma, eu fiz tudo e ajudei no que pude, não lhe faltou nada.

 

Em contexto profissional já referi palavras de pesar, manifestos fracos de força, chorei e já abracei. No início sentia ali uma barreira ela falava-me ao ouvido e dizia não te envolvas na sua dor.

Hoje as lágrimas dos outros não ficaram mais fáceis e acredito que nunca ficarão, o meu instinto será sempre de fuga pois não sei o que fazer, pior, o que dizer mas a reação contraria-me e deixo-me levar pelo toque, afago a mão de quem sofre a perda e por vezes há um aperto de forças, é um momento tenso e tento ser fria na minha condição empática se tal for possível. Envolveste-te contudo mantém-te racional. 

 

Em contexto não profissional luto numa busca desenfreada pelas minhas armas de confronto e elas quase sempre ajudam mas por vezes falham. É que vocês sabem, falar sobre a morte não é fácil. Falar sobre um ente querido que vive mas a sua condição de saúde é grave e o que resta é esperar é atroz. Muito por causa desta espera, esperar? Mas esperar até quando? Não está a sofrer? 

 

E assim esperar pacientemente torna-se uma perversidade de sacrifício humano e de vontades que ficam suspensas, num limbo à espera mais uma vez de cair. Constroem-se castelos feitos de esperança e futuros, várias versões deste futuro. Do passo a seguir, do que é necessário fazer. Fica tudo em espera.

 

Não pretendo escrever do que falar com o outro lado da moeda, com a pessoa que vai morrer e que se encontra lúcida. Porque se não sei ainda como reagir com os que ficam, com os que vão e sabem disso é assustador para mim, não sou tão forte assim, e a minha vontade é tocar, afagar com um instinto maternal se não sei ser o mais correcto, por isso evito esses confrontos. 

 

Se quiserem conversar sobre a morte comigo, eu respondo, não terei as respostas mais brilhantes, nem a deixa mais calma e pacificadora do espírito, mas serei honesta e nalgum ponto quererei dar a mão, dar um pouco da minha força. Penso que ajuda se não ajuda a mim. 

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